Maison Media

A Nebbiolo do Barolo e a Sangiovese da Toscana: colinas, rochas e regras

Como as regras do Barolo ligam a Nebbiolo às colinas das Langhe, o papel dos seus nevoeiros e margas, e como o Chianti exigiu uvas brancas.

O Barolo é um vinho tinto DOCG feito apenas de Nebbiolo cultivada em vinhas de encosta de onze comunas das colinas das Langhe, no sul do Piemonte.

Faz parte de: Regiões

Maison Media Editorial · Publicado · Atualizado

Um castelo numa colina envolta em nevoeiro sobre fileiras de vinha, com encostas de ciprestes e casas de pedra na luz quente da manhã (imagem gerada)
Imagem gerada. Junta uma colina com castelo no nevoeiro da manhã e encostas de ciprestes numa paisagem imaginada; não mostra um lugar real. As Langhe e a Toscana são descritas no texto.

Imagem: Maison Apéro (imagem gerada) · Maison Apéro original

Duas castas, dois regulamentos

A Nebbiolo e a Sangiovese estão por trás de dois dos nomes de vinho tinto mais conhecidos de Itália: o Barolo, no Piemonte, e o Chianti, na Toscana. Em vez de comparar a fama de cada um, este artigo compara o que os regulamentos de produção realmente estabelecem, e o que isso ensina a quem prova.

A Nebbiolo é considerada a mais antiga casta tinta autóctone do Piemonte, e o Barolo tem de ser feito apenas com ela. O Chianti, pelo contrário, assenta na Sangiovese e admite outras castas a seu lado, e o seu primeiro regulamento DOC exigia também uvas brancas (secção 6).

A Toscana tem outras denominações célebres, como o Chianti Classico e o Brunello di Montalcino, com regras e solos próprios.

Duas amostras de rocha com etiquetas manuscritas sobre o tampo de uma barrica, ao lado de um copo de vinho tinto e de um guardanapo de linho, com barricas e garrafas atrás (imagem gerada)
Imagem gerada. Duas amostras de rocha com etiquetas manuscritas estão sobre o tampo de uma barrica, ao lado de um copo de vinho tinto. As rochas, as etiquetas e as marcas fazem parte da imagem; não são amostras reais nem uma identificação geológica. As rochas do Barolo são descritas no texto.

Imagem: Maison Apéro (imagem gerada) · Maison Apéro original

A zona do Barolo: onze comunas, só encostas

Itália: mapa com um marcador em BaroloBarolo e arredores: mapa com um marcador
Barolo · ItáliaMapa: Maison Apéro, com base em Natural Earth (domínio público)

O Barolo vem das Langhe, as colinas do sul do Piemonte próximas dos Alpes Marítimos e dos Apeninos Lígures. A zona abrange a totalidade das comunas de Barolo, Serralunga d'Alba e Castiglione Falletto, e partes de La Morra, Monforte d'Alba, Verduno, Novello, Grinzane Cavour, Diano d'Alba, Cherasco e Roddi: onze comunas no total.

O regulamento de produção (o disciplinare) prende o vinho às encostas. As vinhas têm de estar apenas em encosta, e ficam excluídos os fundos de vale e os terrenos húmidos, planos ou com insolação insuficiente. Têm de situar-se entre 170 e 540 metros de altitude; as novas plantações não podem estar viradas a norte (entre −45° e +45° em relação ao norte), e os solos têm de ser argilosos, calcários ou uma combinação dos dois.

A Nebbiolo tem ainda uma orientação de cultivo que não faz parte do regulamento do Barolo: como as suas películas são ricas em taninos, a Nebbiolo precisa de encostas bem expostas ao sol, de preferência viradas a sul ou sudoeste, entre 200 e 450 metros, abrigadas das geadas e do frio primaveril. Um vinho do nosso catálogo, o Barolo I Tre Pais da Broccardo, vem de vinhas em Monforte d'Alba, Barolo e Novello situadas a 350 metros e viradas a sul e sudoeste.

Ilustração de uma colina arredondada das Langhe, com vinhas em espaldeira na encosta entre duas linhas bordeaux a 170 e 540 m, uma faixa rosa de 200 a 450 m, uma vinha assinalada a 350 m, bosque no cume, um rio no fundo do vale e uma bússola com o setor virado a norte sombreado

As alturas assinaladas partilham a mesma escala vertical: a faixa do Barolo em bordeaux, a recomendação de cultivo para a Nebbiolo como faixa rosa ao longo da encosta e as vinhas de um produtor a 350 m. A recomendação é um conselho, não uma regra. A bússola marca o setor virado a norte, vedado a novas plantações. O contorno da colina, as formas e as cores são ilustrativos.

Ler a figura em texto
  • Regra do Barolo: 170–540 m — Só vinhas de encosta, dentro desta faixa
  • Recomendação para a Nebbiolo: 200–450 m — Conselho de cultivo, fora das regras
  • Uma vinha: 350 m — I Tre Pais, de Broccardo, virada a sul e sudoeste
  • Fundo do vale: excluído — Também ficam de fora terrenos húmidos, planos ou com pouco sol
  • Novas plantações: não viradas a norte — Zona sombreada: de −45° a +45° do norte

Nevoeiro, maturação tardia e o clima das Langhe

O clima das Langhe é temperado subcontinental frio, moldado pela proteção da cadeia alpina e por correntes suaves e húmidas vindas do mar da Ligúria. A zona do Barolo tem temperaturas intermédias: está protegida dos ventos, mas é influenciada tanto pelas correntes alpinas como pelo ar quente e húmido que sobe do vale do Tanaro. As suas três cristas de colinas criam paisagens variadas e, com elas, muitos microclimas.

A Nebbiolo amadurece tarde, na primeira quinzena de outubro; a Broccardo vindima o I Tre Pais à mão entre meados e o fim de outubro. Há duas explicações para o nome, ambas ligadas a nebbia, nevoeiro: ou os bagos parecem enevoados sob a sua abundante pruína, ou a vindima tardia coincide com os primeiros nevoeiros de outono. Ambas são possibilidades, não um facto assente.

As rochas sob o Barolo

As colinas do Barolo dominam o rio Tanaro e distinguem-se por uma marga branca. A maior parte da zona de cultivo pertence à formação tortoniana: areias estratificadas e uma marga cinzento-azulada pouco resistente, que forma colinas brancas, baixas e arredondadas.

As formações das Langhe situam-se entre o Languiano, há 15,9 a 13,8 milhões de anos, e o Messiniano, há 7,2 a 5,3 milhões de anos, com o Serravaliano e o Tortoniano pelo meio. Entre elas estão as margas de Sant'Agata Fossili, a Formação de Lequio e os Arenitos de Diano. Na Formação de Lequio, a marga argilosa alterna com menos areia e dá solos siltosos, claramente calcários e com uma boa parte de argila; encontra-se no centro e no sul de Serralunga d'Alba e na vertente oriental de Monforte d'Alba. Os Arenitos de Diano são camadas arenosas tortonianas depositadas por deslizamentos submarinos; os seus solos são muito arenosos, menos calcários e pobres em argila, e surgem em torno de Monforte d'Alba, Castiglione Falletto, Barolo e Diano d'Alba.

Isto descreve rochas e solos, não vinhos. As notas de prova que atribuem mais perfume ao Barolo de uma comuna e mais estrutura ao de outra misturam o solo com a altitude, a exposição, os microclimas das três cristas e as escolhas de cada adega.

Ilustração de dois cortes de solo, cada um sob uma videira em espaldeira: em cima, a Formação de Lequio, com solo siltoso claro sobre espessas camadas de marga argilosa e finas camadas de areia; em baixo, os Arenitos de Diano, com solo arenoso sobre camadas de areia sobrepostas

Apenas rocha e solo; nenhuma das duas formações é associada aqui a um estilo de vinho. O número, a espessura e as cores das camadas são ilustrativos.

Ler a figura em texto
  • Formação de Lequio — Centro-sul de Serralunga d'Alba; encosta oriental de Monforte d'Alba
  • Solo: siltoso, com bastante argila — Decididamente calcário
  • Rocha: marga argilosa — Alterna com menos areia
  • Arenitos de Diano — Monforte d'Alba, Castiglione Falletto, Barolo, Diano d'Alba
  • Solo: muito arenoso, pobre em argila — Menos calcário
  • Rocha: camadas arenosas — Depositadas por deslizamentos submarinos

Regras de estágio e as escolhas de um produtor

O regulamento conta o estágio a partir de 1 de novembro do ano da vindima. O Barolo tem de envelhecer pelo menos 38 meses, dos quais pelo menos 18 em madeira; o Barolo Riserva pelo menos 62 meses, também com um mínimo de 18 em madeira.

Dentro destes limites, cada produtor escolhe como extrair e estagiar o vinho. No I Tre Pais, a Broccardo pratica uma fermentação controlada a 28 °C com cerca de 20 dias de maceração, a fermentação malolática em inox em novembro e depois cerca de 24 meses em barricas de carvalho francês e da Eslavónia de vários tamanhos, até 60 hectolitros, desde novas até dez anos de uso: mais tempo em madeira do que o mínimo de 18 meses.

A Sangiovese e a regra das uvas brancas do Chianti

Itália: mapa com um marcador em ChiantiChianti e arredores: mapa com um marcador
Chianti · ItáliaMapa: Maison Apéro, com base em Natural Earth (domínio público)

Na Toscana, a comparação parte da Sangiovese e das castas admitidas a seu lado. O regulamento DOC do Chianti de 1967 exigia um vinho assente na Sangiovese com 10 a 30 % das uvas brancas Trebbiano e Malvasia. O regulamento atual da DOCG Chianti permite a Trebbiano Toscano e a Malvasia, sozinhas ou em conjunto, até um máximo de 10 %.

Os dois nomes diferem, portanto, naquilo que as regras fixam. O Barolo fixa uma só casta, uma faixa de altitude nas colinas e um tempo mínimo em madeira; o regulamento do Chianti parte da Sangiovese e fixa a parte das outras castas: as uvas brancas, antes obrigatórias, são hoje apenas permitidas e com um limite mais baixo.

Tabela que compara as regras do Barolo DOCG e do Chianti: castas, uvas brancas, zona e parcelas, altitude e exposição, solos e estágio mínimo

As regras que este artigo cita, lado a lado. O Barolo fixa uma casta, uma faixa de altitude nas colinas, os solos e um tempo mínimo em madeira; as regras do Chianti partem da Sangiovese e fixam a proporção de outras castas. Uma célula vazia indica que este artigo não trata essa regra.

  • A Broccardo estagia o seu Barolo I Tre Pais cerca de 24 meses em carvalho, mais do que o mínimo de 18 meses.
Ler a figura em texto
A figura em tabela
Barolo DOCGChianti
CastasSó NebbioloSangiovese, com outras castas permitidas
Uvas brancasNenhumaObrigatórias a 10–30 % nas regras DOC de 1967; hoje Trebbiano Toscano e Malvasia até 10 %
Zona e parcelasOnze comunas das Langhe; só encostas, fundos de vale excluídosToscana
Altitude e exposição170–540 m; novas plantações não podem estar viradas a norte (−45° a +45° do norte)—
SolosArgilosos, calcários ou ambos—
Estágio mínimo38 meses, 18 deles em madeira, desde 1 de novembro da vindima; Riserva 62 meses—

Provar os dois lado a lado

No nariz, o I Tre Pais é intenso, frutado e ligeiramente especiado, e na boca é seco, encorpado, ligeiramente tânico e harmonioso (Broccardo). Uma descrição destas é do próprio produtor: leia-a depois de provar, não antes.

Para provar um Barolo ao lado de um Chianti, anote o que observa antes de ler qualquer rótulo ou nota: a cor do bordo em comparação com o centro, a rapidez com que o tanino seca as gengivas e em que parte da língua o sente, e quanto a acidez faz salivar. Depois compare as notas com as regras: uma só casta estagiada pelo menos 38 meses, frente a um vinho assente na Sangiovese cujas regras admitem outras castas.

Exercício escrito 1: as regras que prendem o Barolo às colinas

Pergunta
Com base no regulamento de produção do Barolo, explique como ele liga o vinho às colinas das Langhe. Indique pelo menos quatro requisitos e o que cada um exclui.

Resposta modelo
O Barolo tem de ser feito apenas com Nebbiolo. As vinhas têm de estar em encosta, pelo que ficam excluídos os fundos de vale e os terrenos húmidos, planos ou com insolação insuficiente. Têm de situar-se entre 170 e 540 metros de altitude, o que exclui tanto os terrenos mais baixos como os mais altos. As novas plantações não podem estar viradas a norte (entre −45° e +45° em relação ao norte). Os solos têm de ser argilosos, calcários ou uma mistura dos dois. Por fim, o vinho tem de envelhecer pelo menos 38 meses a partir de 1 de novembro do ano da vindima, 18 dos quais em madeira (62 meses para o Riserva).

Critérios de avaliação (10 pontos)
- Uma só casta: 100 % Nebbiolo (2 pontos)
- Localização em encosta e terrenos excluídos (2 pontos)
- Faixa de altitude de 170 a 540 m (2 pontos)
- Exclusão das novas plantações viradas a norte (2 pontos)
- Tipos de solo ou mínimos de estágio indicados corretamente (2 pontos)

Exercício escrito 2: ler uma fonte geológica com espírito crítico

Pergunta
Na zona do Barolo encontram-se a Formação de Lequio e os Arenitos de Diano. Compare os solos que cada um origina, indique onde se encontram na zona do Barolo e explique por que estas descrições, por si sós, não provam que o Barolo de uma comuna tem um estilo próprio.

Resposta modelo
Na Formação de Lequio, a marga argilosa alterna com menos areia e dá solos siltosos, claramente calcários e com uma boa parte de argila; situa-se no centro e no sul de Serralunga d'Alba e na vertente oriental de Monforte d'Alba. Os Arenitos de Diano são camadas arenosas tortonianas resultantes de deslizamentos submarinos e dão solos muito arenosos, menos calcários e com pouca argila, em torno de Monforte d'Alba, Castiglione Falletto, Barolo e Diano d'Alba. Estas descrições dizem respeito à rocha e à textura do solo. O estilo de um vinho depende também da altitude (entre 170 e 540 m no Barolo), da exposição, dos microclimas criados pelas três cristas da zona, da colheita e da vinificação; para ligar uma formação a um estilo, é preciso comparar vinhos mantendo constantes esses outros fatores.

Critérios de avaliação (10 pontos)
- Formação de Lequio: textura e teor de calcário bem descritos (3 pontos)
- Arenitos de Diano: origem, textura e teor de calcário bem descritos (3 pontos)
- Localização de cada formação (2 pontos)
- Pelo menos outros dois fatores que podem influir no estilo e necessidade de uma comparação controlada (2 pontos)

Da colina à garrafa no Barolo

Passo 1

Lugar e regras

  • Vinhas em encosta entre 170 e 540 m; sem novas plantações a norte
  • Solos argilosos ou calcários sobre areias tortonianas e marga cinzento-azulada
Passo 2

Clima e maturação

  • Correntes alpinas e ar quente e húmido que sobe do vale do Tanaro
  • A Nebbiolo amadurece tarde, na primeira quinzena de outubro
Passo 3

Adega e rótulo

  • Pelo menos 38 meses de estágio, 18 deles em madeira
  • Só a Nebbiolo pode ser usada no Barolo
Resumo dos pontos com fonte deste artigo; cada passo é explicado no texto com a respetiva fonte.

Perguntas frequentes

O que exige o regulamento da DOCG Barolo?

O Barolo tem de ser feito apenas com Nebbiolo de vinhas em encosta situadas entre 170 e 540 metros de altitude, em solos argilosos ou calcários, sem novas plantações viradas a norte. Tem de envelhecer pelo menos 38 meses a partir de 1 de novembro do ano da vindima, 18 dos quais em madeira; o Riserva exige 62 meses.

De onde vem o nome Nebbiolo?

Liga-se a nebbia, nevoeiro, e há duas explicações: os bagos parecem enevoados sob a sua abundante pruína, ou a vindima tardia, depois de a uva amadurecer na primeira quinzena de outubro, coincide com os primeiros nevoeiros de outono.

Que rochas existem sob as vinhas do Barolo?

A maior parte da zona pertence à formação tortoniana de areias estratificadas e marga cinzento-azulada. Entre as formações das Langhe contam-se as margas de Sant'Agata Fossili, a Formação de Lequio (solos siltosos e calcários com argila) e os Arenitos de Diano (solos muito arenosos e menos calcários).

Como mudou a regra do Chianti sobre as uvas brancas?

O regulamento DOC do Chianti de 1967 exigia um vinho assente na Sangiovese com 10 a 30 % das uvas brancas Trebbiano e Malvasia. O regulamento atual da DOCG Chianti permite estas uvas brancas até um máximo de 10 %.

Fontes