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Sauternes e a podridão nobre: como a névoa do rio, os dias secos e regras rigorosas criam um vinho doce

As névoas do Ciron e o ar seco do dia transformam a botrytis em podridão nobre; regras rigorosas de vindima e de açúcar definem o Sauternes.

O Sauternes é um vinho branco doce de cinco comunas da Gironda, feito com uvas sobremaduras com podridão nobre, colhidas à mão em passagens sucessivas (tries).

Faz parte de: Vinificação

Maison Media Editorial · Publicado · Atualizado

Cachos de uvas murchas de cor laranja-dourada, alguns bagos cobertos de bolor cinzento, numa videira com folhas de outono e névoa no vale ao fundo (imagem gerada)
Imagem gerada. Uvas murchas, algumas cobertas de bolor cinzento, pendem de uma videira outonal sobre uma linha pedregosa, com névoa no vale ao fundo. Não mostra nenhuma vinha em particular.

Imagem: Maison Apéro (imagem gerada) · Maison Apéro original

França: mapa com um marcador em SauternesSauternes e arredores: mapa com um marcador
Sauternes · FrançaMapa: Maison Apéro, com base em Natural Earth (domínio público)

Onde fica Sauternes e o que abrange a denominação

Sauternes fica a cerca de 40 quilómetros a sudeste de Bordéus, no vale do Garona. As regras da denominação limitam a vindima, a vinificação e o estágio a cinco comunas da Gironda: Barsac, Bommes, Fargues, Preignac e Sauternes. Barsac tem também uma denominação própria.

O Sauternes é um vinho branco doce. As regras exigem uvas vindimadas em sobrematuração, com presença de podridão nobre, e colhidas à mão em passagens sucessivas pela vinha, as chamadas tries. A vinha de Sauternes e Barsac ocupa cerca de 2200 hectares.

Este artigo segue a cadeia que vai da névoa do rio ao bago e, depois, às regras que definem o vinho.

Grande plano de um cacho de bagos murchos âmbar e roxos, muitos cobertos de bolor cinzento e alguns com gotas, contra um sol baixo (imagem gerada)
Imagem gerada. Neste grande plano de um só cacho, alguns bagos estão murchos e cor de âmbar, outros roxos e cobertos de bolor cinzento, e alguns têm gotas. Não mostra nenhuma vinha em particular.

Imagem: Maison Apéro (imagem gerada) · Maison Apéro original

Terroir: solos, relevo, altitude e exposição

O cascalho é a marca das encostas. Os cascalhos de Sauternes foram arrancados aos Pirenéus e ao Maciço Central e transportados pelo Garona e pelos seus afluentes; os seixos, de um a vários centímetros, estão envoltos numa matriz sobretudo arenosa, calcária ou argilosa.

A erosão moldou estes cascalhos em suaves outeiros, as croupes, entre 15 e 60 metros de altitude. Na margem direita do Ciron, as comunas de Preignac, Fargues, Sauternes e Bommes assentam num planalto inclinado cujo substrato de calcário conquífero, marga ou areia argilosa data do Terciário.

A vinha tem exposição leste-sudeste, o que favorece a ventilação natural. O movimento do ar importa aqui porque as uvas têm de secar depois de noites húmidas, como explica a secção seguinte.

Clima: o Ciron, o Garona e as névoas de outono

O Ciron é um pequeno rio que nasce nas Landes e desagua no Garona na zona de Sauternes. A sua água é mais fresca do que a do Garona. Onde os dois se encontram, a condensação traz humidade abundante, e as névoas de outono daí resultantes favorecem o desenvolvimento de Botrytis cinerea.

A denominação depende de uma alternância: noites húmidas e, depois, uma ventilação rápida e forte durante o dia. A fase húmida permite que o fungo se instale nas uvas maduras; a fase seca impede que a infeção se transforme numa podridão destrutiva. Nenhuma das duas fases, sozinha, produz a podridão nobre.

Cachos dourados e roxos nas videiras em primeiro plano, névoa sobre um rio no vale e um château com torres numa encosta de vinha ao fundo (imagem gerada)
Imagem gerada. Em primeiro plano pendem das videiras cachos dourados e roxos; para lá das linhas, a névoa cobre um rio no vale e um château com torres ergue-se numa encosta de vinha, com o sol baixo. Não mostra nenhuma vinha em particular.

Imagem: Maison Apéro (imagem gerada) · Maison Apéro original

Podridão nobre ou podridão cinzenta: o tempo decide

Botrytis cinerea é um fungo cinzento. A infeção precisa de condições húmidas, e as uvas costumam ser infetadas quando estão maduras. O que acontece depois depende do tempo: se continuar húmido, a infeção assume a sua forma prejudicial, a podridão cinzenta, que pode destruir a colheita.

Se as uvas maduras infetadas ficarem depois expostas a condições mais secas, passificam em parte: essa forma benéfica é a podridão nobre. Colhidas no momento certo, podem dar um vinho doce particularmente concentrado. Sauternes assenta precisamente neste resultado: uma podridão nobre que concentra as uvas.

A figura seguinte põe lado a lado os dois desfechos do mesmo fungo.

Ilustração de colinas baixas de cascalho com fileiras de videiras, um rio mais estreito e claro que serpenteia entre elas até um rio largo, com névoa sobre a água, e duas ampliações: um cacho dourado e murcho sob o sol e um cacho marrom coberto de mofo cinzento sob a chuva

As noites úmidas de outono e a névoa onde o Ciron, mais frio, encontra o Garona permitem que a Botrytis cinerea se instale nas uvas maduras. Se vierem dias secos, as bagas murcham em podridão nobre (à esquerda); se o tempo continuar úmido, instala-se a podridão cinzenta (à direita). As formas e as cores são ilustrativas; as alturas das colinas e as larguras dos rios não estão em escala.

Ler a figura em texto
  • Onde os rios se encontram — O Ciron, mais frio, encontra o Garona, mais quente: a condensação traz umidade e névoa que favorecem a Botrytis
  • Croupes de cascalho, 15–60 m — Colinas baixas e arredondadas de seixos numa matriz sobretudo arenosa; a orientação lés-sudeste favorece a ventilação
  • Dias secos: podridão nobre — As bagas maduras infectadas murcham em parte e se concentram; colheita manual em passagens sucessivas (tries)
  • Tempo úmido: podridão cinzenta — Sem fase de secagem, a infecção se torna prejudicial e pode destruir a colheita

Castas, vindima e regras da denominação

São admitidas quatro castas: Sémillon, Sauvignon Blanc, Sauvignon Gris e Muscadelle. A Sémillon é a casta principal.

As regras exigem a vindima manual em passagens sucessivas (tries), colhendo uvas sobremaduras com podridão nobre. As uvas com menos de 221 gramas de açúcar por litro de mosto não são consideradas em boa maturação, e o rendimento é fixado em 25 hectolitros por hectare.

O vinho tem de atingir um título alcoométrico volúmico natural mínimo de 15%, e o vinho comercializado a granel ou engarrafado tem de conter pelo menos 45 gramas por litro de açúcares fermentescíveis (glucose e frutose). Em conjunto, estes limites significam que um Sauternes conserva parte do açúcar da uva como doçura.

Tabela das regras da denominação Sauternes: área, castas, vindima manual em passagens sucessivas, maturação, teor de açúcar, rendimento, título alcoométrico natural e açúcares fermentescíveis

Requisitos das regras de Sauternes. Todo o vinho rotulado como Sauternes, classificado ou não, tem de os cumprir.

Ler a figura em texto
A figura em tabela
RequisitoAplica-se a
ÁreaBarsac, Bommes, Fargues, Preignac, SauternesVindima, vinificação e estágio
CastasSémillon (principal), Sauvignon Blanc, Sauvignon Gris, MuscadelleVinha
VindimaÀ mão, em passagens sucessivas (tries)Colheita
MaturaçãoSobremaduras, com podridão nobreUvas na vindima
Teor de açúcarPelo menos 221 g por litro de mostoUvas na vindima
Rendimento25 hl/haVinha
Título alcoométrico naturalPelo menos 15%Vinho
Açúcares fermentescíveisPelo menos 45 g/L (glucose + frutose)Vinho a granel ou engarrafado

1855: Sauternes numa lista própria e o Château d'Yquem

A classificação dos vinhos de Bordéus de 1855 ordenou os vinhos brancos doces de Sauternes e Barsac numa lista própria, separada da dos tintos. Nela, só o Château d'Yquem recebeu o grau de Premier Cru Supérieur, acima dos primeiros crus.

A classificação ordena châteaux e não altera as regras da denominação: classificado ou não, todo o produtor que rotula o seu vinho como Sauternes segue as mesmas regras. A classificação em si é explicada noutro artigo.

No copo: o que observar

Comece pela doçura e pelo equilíbrio. Todo o Sauternes contém pelo menos 45 gramas de açúcar por litro; a pergunta não é, portanto, se o vinho é doce, mas se a acidez mantém essa doçura viva ou a deixa pesada.

Descreva depois a cor e o aroma por palavras suas: registe se a cor está mais perto do ouro pálido ou do âmbar profundo e que aromas encontra realmente. Escreva o que observa antes de ler a descrição do produtor, para que a sua nota registe o vinho e não o rótulo.

Exercício 1: como a névoa ajuda a podridão nobre

Pergunta
Explique como o encontro do Ciron com o Garona, juntamente com o ritmo diário do tempo, permite que Botrytis cinerea se torne podridão nobre e não podridão cinzenta.

Resposta modelo
A água do Ciron é mais fresca do que a do Garona. Onde os dois rios se juntam, a condensação traz humidade abundante e formam-se névoas no outono. Nesta fase húmida, à noite e de manhã, Botrytis cinerea instala-se nas uvas maduras. Durante o dia, uma ventilação rápida e forte, favorecida pela exposição leste-sudeste da vinha, seca as uvas. Como à fase húmida se segue a secagem, os bagos infetados passificam em parte e concentram-se (podridão nobre); se o tempo continuasse húmido, a infeção transformar-se-ia na prejudicial podridão cinzenta.

Autoavaliação
- Explicou por que se forma névoa onde os rios se juntam?
- Relacionou a humidade com o desenvolvimento do fungo?
- Explicou por que a secagem diurna é o que mantém a podridão nobre?

Exercício 2: o que exigem as regras

Pergunta
Resuma como as regras da denominação Sauternes controlam a vindima e a doçura do vinho e explique o que indicam os seus números.

Resposta modelo
As uvas têm de ser vindimadas à mão em passagens sucessivas (tries), sobremaduras e com presença de podridão nobre. As uvas com menos de 221 g de açúcar por litro de mosto não são consideradas maduras, e o rendimento é fixado em 25 hl/ha. O vinho tem de atingir um título alcoométrico natural mínimo de 15% e conservar pelo menos 45 g/L de açúcares fermentescíveis. O elevado limiar de açúcar na vindima e o mínimo de açúcar residual garantem em conjunto um vinho doce feito de uvas concentradas; o rendimento de 25 hl/ha e a vindima manual repetida refletem a seleção que as regras exigem.

Autoavaliação
- Mencionou a vindima manual em passagens sucessivas e a podridão nobre?
- Indicou o limiar de açúcar na vindima e o rendimento, com as unidades?
- Indicou o título alcoométrico natural mínimo e o açúcar residual, e o que significam em conjunto?

Da névoa do rio ao vinho doce

Passo 1

Meio

  • O Ciron, mais fresco, junta-se ao Garona, mais quente: névoas de outono
  • A exposição leste-sudeste e a ventilação diurna secam as uvas
Passo 2

No bago

  • Com a humidade, Botrytis cinerea instala-se nas uvas maduras
  • A secagem torna a infeção podridão nobre: os bagos passificam e concentram-se
Passo 3

No vinho

  • Vindima manual em passagens sucessivas (tries)
  • Vinho doce com pelo menos 45 g/L de açúcar
Como se ligam em Sauternes o meio, o bago e as regras da denominação

Perguntas frequentes

Onde fica Sauternes e qual é a dimensão da sua vinha?

Sauternes fica a cerca de 40 km a sudeste de Bordéus, no vale do Garona. A vindima, a vinificação e o estágio limitam-se a cinco comunas da Gironda, e a vinha de Sauternes e Barsac ocupa cerca de 2200 hectares. Os seus cascalhos formam suaves outeiros, as croupes, entre 15 e 60 m de altitude, com exposição leste-sudeste.

Porque se forma névoa em Sauternes?

O pequeno rio Ciron, que nasce nas Landes, tem água mais fresca do que o Garona, onde desagua. Onde os dois se encontram, a condensação traz humidade abundante e névoas de outono. Noites húmidas seguidas de ventilação forte durante o dia permitem que a podridão nobre se desenvolva.

O que exigem as regras da denominação Sauternes?

Uvas de cinco comunas (Barsac, Bommes, Fargues, Preignac e Sauternes), das castas Sémillon, Sauvignon Blanc, Sauvignon Gris e Muscadelle, vindimadas à mão em passagens sucessivas quando estão sobremaduras e com podridão nobre. As uvas precisam de pelo menos 221 g/L de açúcar, o rendimento é fixado em 25 hl/ha e o vinho tem de ter um título alcoométrico natural mínimo de 15% e pelo menos 45 g/L de açúcares fermentescíveis.

Que château de Sauternes recebeu o grau mais alto em 1855?

O Château d'Yquem. Na classificação de 1855, que ordenou os vinhos doces de Sauternes e Barsac separadamente dos tintos, foi o único classificado como Premier Cru Supérieur.

Ver também: O que é a podridão nobre? (Vinhos doces de podridão nobre comparados: Sauternes, Loire, Alsácia, Alemanha, Áustria e Tokaj)

Fontes

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