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As duas faces da Austrália Meridional: o shiraz de vinhas velhas do Barossa e a terra rossa de Coonawarra

Porque o Barossa Valley mantém videiras de pé-franco da década de 1840, o que é a terra rossa de Coonawarra e de onde vem a nota mentolada dos seus tintos.

A terra rossa de Coonawarra é uma argila leve, vermelha e permeável, com cerca de 50 cm de profundidade média sobre uma base calcária, que forma uma faixa em forma de charuto com cerca de 27 km de comprimento e 2 km de largura.

Faz parte de: Regiões

Maison Media Editorial · Publicado · Atualizado

Videiras velhas e retorcidas com cachos escuros sobre solo vermelho, filas ladeadas por pedras claras e, ao fundo, armazéns e árvores altas
Videiras velhas entre solo vermelho e pedras claras. Imagem gerada que ilustra os temas do artigo; não mostra uma vinha concreta.

Imagem: Maison Apéro (imagem gerada) · Maison Apéro original

Duas regiões, duas lições

O Barossa Valley e Coonawarra ficam ambos na Austrália Meridional, mas ensinam coisas diferentes. O Barossa Valley é uma das duas regiões vitícolas da zona de Barossa, reconhecida em 1997; a outra é Eden Valley, que inclui a sub-região de High Eden. Coonawarra situa-se no sudeste do estado, na Limestone Coast.

No Barossa, a lição é histórica: um estado que manteve a filoxera à distância conserva videiras muito velhas sobre as suas próprias raízes. Em Coonawarra, a lição é um perfil de solo: uma argila vermelha e fina sobre calcário. Um terceiro fio atravessa ambas: a nota de eucalipto ou de menta de alguns tintos australianos, que a investigação atribui às árvores e às folhas, e não ao solo.

Porque as videiras da Austrália Meridional podem ficar em pé-franco

A filoxera é um inseto que se alimenta das raízes e que causou enormes danos nas vinhas da Europa e de outras regiões no final do século XIX. Na maior parte dos sítios, o remédio foi replantar sobre porta-enxertos resistentes. A Austrália Meridional escolheu outro caminho: impedir a entrada do inseto.

Os líderes do setor convenceram o governo do estado a aprovar, em 1874, o Vine Protection Act, que proibia a importação de material vegetativo de videira proveniente de países e territórios australianos com filoxera. Quando a filoxera foi confirmada em vinhas de Geelong (Victoria), em 1877, a prevenção intensificou-se. O Phylloxera Act de 1899 criou o Phylloxera Board, um organismo estatutário que regista as vinhas e controla a entrada de material de videira; hoje opera com o nome de Vinehealth Australia.

Como a praga foi mantida à distância, os viticultores da Austrália Meridional nunca foram obrigados a replantar sobre porta-enxertos, e videiras muito velhas em pé-franco puderam sobreviver. A Langmeil Winery afirma que a sua vinha Freedom, no Barossa Valley, terá sido plantada em 1843 por Christian Auricht, um colono vindo da Prússia, e que se crê que essas cepas são o shiraz vivo mais antigo do mundo.

Contar a idade: a Barossa Old Vine Charter

As vinhas velhas só significam algo para o comprador se a sua idade estiver registada. A Barossa Old Vine Charter nasceu de uma iniciativa da Yalumba em 2007 e foi adotada a nível regional em 2009. Classifica as vinhas em quatro categorias de idade: Barossa Old Vine (35 anos ou mais), Survivor Vine (70 anos ou mais), Centenarian Vine (100 anos ou mais) e Ancestor Vine (125 anos ou mais).

Uma vinha plantada em 1843 teria 183 anos em 2026, bem dentro da categoria Ancestor. A carta é um registo de idade. Não mede, por si só, o rendimento, a concentração ou a qualidade; por isso, a categoria num rótulo deve ler-se como um facto sobre as videiras e não como uma nota de prova.

Barossa Valley: altitude e um fundo de vale quente e seco

Austrália: mapa com um marcador em Barossa ValleyBarossa Valley e arredores: mapa com um marcador
Barossa Valley · AustráliaMapa: Maison Apéro, com base em Natural Earth (domínio público)

O Barossa Valley situa-se entre 112 e 597 m de altitude (Barossa Australia), com 53% da região abaixo dos 280 m; Eden Valley vai dos 217 aos 630 m, com 99% acima dos 280 m. Eden Valley, a mais alta das duas, é a região mais fresca.

O fundo do vale é quente e seco, com humidade baixa e pouca chuva durante o ciclo vegetativo. Estas condições favorecem tintos encorpados, sobretudo de shiraz.

Coonawarra: uma faixa vermelha sobre calcário

Austrália: mapa com um marcador em CoonawarraCoonawarra e arredores: mapa com um marcador
Coonawarra · AustráliaMapa: Maison Apéro, com base em Natural Earth (domínio público)

A região é definida por uma faixa de terra rossa em forma de charuto, com cerca de 27 km de comprimento e 2 km de largura (Coonawarra Vignerons). A terra rossa é uma argila leve e permeável, com cerca de 50 cm de profundidade média sobre uma base calcária; deixa a água escoar livremente e mantém ar no solo para as raízes. A região é muito plana.

Este solo vermelho é jovem. Um estudo de quatro perfis de solo de Coonawarra (Mee, Bestland e Spooner, Geomorphology, 2004) concluiu que a terra rossa é dominada por poeira trazida pelo vento a partir das imediações, acumulada provavelmente ao longo dos últimos 120 000–130 000 anos. Não é, portanto, apenas a parte alterada do calcário subjacente. Em palavras simples: antigos fundos marinhos tornaram-se calcário, as glaciações deslocaram a linha de costa e o vento trouxe a poeira.

Perfil de solo junto a uma vinha em espaldeira, com uma camada vermelha sobre rocha branca e uma raiz de videira a descer
Uma cova aberta junto a uma vinha em espaldeira: uma camada vermelha sobre rocha branca e fissurada, atravessada por uma raiz de videira. A régua e as indicações de profundidade fazem parte da imagem gerada e não são medições.

Imagem: Maison Apéro (imagem gerada) · Maison Apéro original

Água, drenagem e uma influência fresca do oceano

Outros dois traços moldam as condições de Coonawarra. No subsolo, o aquífero calcário fornece um abastecimento permanente de água pura. À superfície, o clima é moderado: correntes oceânicas vindas da Antártida refrescam as videiras nas tardes de fim de verão, com dias quentes e noites amenas a frescas.

A Coonawarra Vignerons atribui a aptidão da região para o cabernet sauvignon à combinação da terra rossa, de um período de maturação longo e fresco e da água do aquífero calcário. São condições, não um resultado garantido: a água que uma videira recebe de facto depende também da chuva, da rega e da gestão de cada vinha.

Tabela que compara Barossa Valley e Coonawarra: altitude, clima, solo e água, casta principal, idade das videiras, filoxera e nota de menta

Os factos com fonte deste artigo, região a região. As linhas da filoxera e da nota de menta aplicam-se a ambas as regiões. Onde uma fonte não dá um valor para uma região, a célula fica vazia.

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A figura em tabela
Barossa ValleyCoonawarra
Altitude e relevo112–597 m; 53 % da região abaixo de 280 mMuito plana
ClimaFundo de vale quente e seco; humidade baixa, pouca chuva no cicloModerado; correntes antárticas refrescam as tardes de fim de verão
Solo e água—Terra rossa de cerca de 50 cm sobre calcário; faixa de 27 km por 2 km; aquífero por baixo
Casta principalShiraz, para tintos de corpo cheioCabernet Sauvignon
Idade das videirasPé-franco; vinha Freedom plantada, crê-se, em 1843; classes de 35 a 125+ anos—
Filoxera (Austrália Meridional)Mantida fora por lei: Vine Protection Act de 1874, Phylloxera Act de 1899Aplicam-se as mesmas leis estaduais
Nota de eucalipto ou menta1,8-cineol de eucaliptos próximos e folhas na fermentação, não do soloA mesma via
Ilustração em dois painéis. Esquerda: fileiras de videiras em taça no fundo de um vale entre colinas, sob um sol forte. Direita: videiras em espaldeira num terreno plano, cujo corte mostra uma fina camada de solo vermelho sobre calcário claro, com água no calcário inferior

À esquerda, o quente fundo do Barossa Valley entre colinas. À direita, a muito plana Coonawarra, cortada para mostrar a terra rossa vermelha sobre calcário, com água no aquífero calcário. Alturas, espessuras das camadas e cores são ilustrativas, sem escala.

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  • Barossa Valley: 112–597 m — 53% da região fica abaixo dos 280 m
  • Vale quente e seco — Baixa humidade e pouca chuva no ciclo; sobretudo para a Shiraz
  • Videiras velhas registadas — A Old Vine Charter classifica as vinhas por idade, dos 35 aos mais de 125 anos
  • Coonawarra: muito plana — Clima moderado; as correntes oceânicas refrescam as tardes do fim do verão. Conhecida pelo Cabernet Sauvignon
  • Terra rossa — Argila leve, vermelha e permeável, com cerca de 50 cm de profundidade, numa faixa de cerca de 27 km por 2 km
  • Aquífero calcário — A água drena bem; o calcário guarda água de forma permanente

Eucalipto e menta: de onde vem o 1,8-cineol

A nota de eucalipto ou de menta é muitas vezes associada aos tintos australianos, e há explicações que a atribuem ao solo, à água subterrânea ou ao vento marinho. A investigação do Australian Wine Research Institute (AWRI) aponta noutra direção. O composto responsável é o 1,8-cineol (eucaliptol). O AWRI encontrou mais deste composto nas uvas e nas folhas de videira mais próximas dos eucaliptos, e menos à medida que a distância aumenta, e identificou as folhas de eucalipto e outras matérias que não são uva (MOG), colhidas com o fruto, como uma via principal de entrada no vinho durante a fermentação.

Assim, um cabernet de Coonawarra ou um shiraz do Barossa mentolado diz mais sobre as árvores junto à parcela e sobre a limpeza da vindima do que sobre a terra rossa. Quem quiser menos desta nota pode retirar as folhas antes da fermentação; quem a aprecia pode mantê-la.

Ilustração de eucaliptos altos no fim de uma fila de videiras em espaldeira, com folhas de eucalipto caídas entre as videiras mais próximas, uma caixa de vindima com uvas e folhas soltas, uma cuba de fermentação desenhada em corte, com folhas a flutuar no mosto tinto, e um copo de vinho tinto

Com base na investigação do AWRI: o 1,8-cineol vem dos eucaliptos junto às vinhas e das folhas e outras matérias que não são uva (MOG) que entram na fermentação; a investigação não aponta o solo. As formas e as cores são ilustrativas.

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  • Eucaliptos — As suas folhas são uma fonte de 1,8-cineol
  • Videiras mais próximas das árvores — Aqui há mais 1,8-cineol nas uvas e nas folhas da videira; menos mais longe
  • Folhas colhidas com o fruto — MOG: matéria que não é uva. Retirar as folhas antes da fermentação reduz a nota
  • Extração na fermentação — O composto passa para o vinho
  • Nota de eucalipto ou menta — Remete a árvores e folhas próximas, não ao solo

Lotes de várias regiões e o que o copo revela

Alguns tintos australianos são feitos com uvas de várias regiões. O Penfolds Grange 2021 é um lote de 94% shiraz e 6% cabernet sauvignon, vindo de mais de uma região da Austrália Meridional; o Grange é, portanto, um lote multirregional dominado pelo shiraz e não o retrato de uma única vinha.

Ao provar um shiraz do Barossa ao lado de um cabernet de Coonawarra, separe o que o local dá do que a adega acrescenta. Registe a maturação da fruta, a acidez, os taninos e a eventual nota de eucalipto ou menta e, depois, confira nas informações do produtor a localização da vinha, a madeira e o lote. O tipo de carvalho, a idade das barricas e o lote são escolhas de vinificação, por isso o copo, sozinho, não prova um efeito do solo.

Exercício 1: pé-franco e a Old Vine Charter

Pergunta
Explique porque sobrevivem videiras muito velhas em pé-franco no Barossa Valley e indique o que a Barossa Old Vine Charter diz e não diz ao comprador.

Resposta modelo
A Austrália Meridional manteve a filoxera à distância em vez de replantar sobre porta-enxertos. O Vine Protection Act de 1874 proibiu o material de videira vindo de zonas infestadas, a prevenção foi reforçada depois de a filoxera ser confirmada em Geelong em 1877 e o Phylloxera Act de 1899 criou o Phylloxera Board, hoje Vinehealth Australia, que regista as vinhas e controla o material de videira. Sem a praga, ninguém foi obrigado a enxertar, e puderam sobreviver videiras em pé-franco como a vinha Freedom da Langmeil, que se crê plantada em 1843. A carta, uma iniciativa da Yalumba de 2007 adotada a nível regional em 2009, regista a idade das vinhas em quatro categorias: 35, 70, 100 e 125 anos ou mais. Certifica apenas a idade; por si só, nada diz sobre rendimento, estilo ou qualidade.

Critérios de avaliação (10 pontos)
- História da biossegurança com pelo menos duas etapas bem datadas (4 pontos)
- Relação entre manter a filoxera à distância e as videiras em pé-franco (2 pontos)
- As quatro categorias da carta e as respetivas idades (2 pontos)
- O que a carta não mede (2 pontos)

Exercício 2: ler a terra rossa e a nota de menta

Pergunta
Descreva a terra rossa de Coonawarra e a sua origem, e explique de onde vem mais provavelmente uma nota de eucalipto ou de menta num cabernet sauvignon de Coonawarra.

Resposta modelo
A terra rossa forma uma faixa em forma de charuto com cerca de 27 km de comprimento e 2 km de largura. É uma argila leve, vermelha e permeável, com cerca de 50 cm de profundidade média sobre calcário, pelo que a água escoa livremente, e um aquífero calcário fornece água subterrânea. Mee, Bestland e Spooner (2004) mostraram que o solo é dominado por poeira eólica de origem próxima, acumulada provavelmente ao longo dos últimos 120 000–130 000 anos. A nota de eucalipto ou de menta vem do 1,8-cineol. O AWRI encontrou mais deste composto nas uvas e nas folhas de videira mais próximas dos eucaliptos, e menos à medida que a distância aumenta, e identificou as folhas e outras MOG presentes na fermentação como uma via principal de entrada no vinho. Esse padrão aponta para as árvores, e não para o solo nem para o aquífero.

Critérios de avaliação (10 pontos)
- Dimensões da faixa e profundidade do solo (3 pontos)
- Origem do solo e a sua idade aproximada (2 pontos)
- Drenagem e aquífero calcário (2 pontos)
- Origem do 1,8-cineol e porque o solo não é a causa (3 pontos)

Da história e do solo até ao copo

Passo 1

Barossa: história e idade das videiras

  • Leis desde 1874 mantêm a filoxera à distância
  • As videiras podem ficar em pé-franco
  • A carta regista idades a partir de 35 anos
Passo 2

Coonawarra: solo e água

  • Poeira eólica deposita-se sobre o calcário
  • Cerca de 50 cm de argila vermelha bem drenada
  • Um aquífero calcário sob as videiras
Passo 3

No copo: nem tudo vem do solo

  • Eucaliptos perto das videiras
  • Folhas e outras MOG na fermentação
  • O 1,8-cineol dá uma nota de eucalipto ou menta
Uma cadeia causal simplificada; cada passo é explicado e documentado nas secções acima.

Perguntas frequentes

Porque escaparam as videiras do Barossa à filoxera?

Porque a Austrália Meridional manteve a praga à distância com leis de biossegurança. O Vine Protection Act de 1874 proibiu o material de videira vindo de zonas infestadas, os controlos foram reforçados depois de a filoxera ser confirmada em Geelong (Victoria) em 1877 e o Phylloxera Act de 1899 criou o Phylloxera Board, hoje Vinehealth Australia. Sem a praga, os viticultores não tiveram de enxertar sobre porta-enxertos resistentes.

O que é a terra rossa de Coonawarra?

Uma argila leve, vermelha e permeável, com cerca de 50 cm de profundidade média sobre calcário, que forma uma faixa com cerca de 27 km de comprimento e 2 km de largura. Um estudo de 2004 mostrou que é dominada por poeira eólica de origem próxima, acumulada provavelmente ao longo dos últimos 120 000–130 000 anos.

A nota de menta do cabernet de Coonawarra vem do solo?

A investigação do AWRI liga a nota de eucalipto ou de menta (1,8-cineol) aos eucaliptos próximos das videiras e às folhas e outras matérias que não são uva (MOG) presentes na fermentação. Não mostra que o solo seja a causa.

O que significa «Ancestor Vine» num rótulo do Barossa?

É uma categoria da Barossa Old Vine Charter para vinhas com 125 anos ou mais. As outras são Centenarian (100 anos ou mais), Survivor (70 anos ou mais) e Barossa Old Vine (35 anos ou mais).

Fontes

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