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A sombra de chuva dos Andes: porque é que Mendoza é seca e o que a altitude muda no Malbec

Os Andes tiram aos ventos de oeste a humidade do Pacífico: Mendoza é semiárida e depende da água andina. A altitude soma UV, estudada nas películas do Malbec.

A sombra de chuva andina é a zona mais seca da vertente argentina, a sotavento dos Andes: ali desce o ar que subiu e perdeu a sua precipitação nas encostas chilenas, e Mendoza fica dentro dela.

Faz parte de: Terroir e clima

Maison Media Editorial · Publicado · Atualizado

Filas de videiras com cachos escuros em solo pedregoso, um caminho de terra e mato seco, sob montanhas nevadas e céu azul
Imagem gerada. Mostra filas de videiras em solo pedregoso sob montanhas nevadas e não representa nenhuma vinha em particular.

Imagem: Maison Apéro (imagem gerada) · Maison Apéro original

Argentina: mapa com um marcador em MendozaMendoza e arredores: mapa com um marcador
Mendoza · ArgentinaMapa: Maison Apéro, com base em Natural Earth (domínio público)

Como os Andes criam uma sombra de chuva

Uma sombra de chuva é a zona a sotavento de uma cordilheira onde a precipitação é visivelmente menor do que a barlavento. À latitude de Mendoza, os sistemas frontais do Pacífico chegam com os ventos de oeste, sobretudo no inverno. Esse fluxo de oeste é forçado a subir as encostas chilenas dos Andes, e a precipitação aumenta à medida que o ar sobe.

Quando o ar atravessa a cordilheira e desce a vertente oriental, a precipitação diminui. O resultado é uma sombra de chuva do lado argentino. O Pacífico fica do outro lado das montanhas, mas Mendoza fica nesta sombra de chuva.

A própria cordilheira é produto do movimento das placas. Ao longo da fossa Peru-Chile, a Placa de Nazca, oceânica, afunda sob a Placa Sul-Americana, cuja parte continental foi elevada e forma os Andes. O bloco-diagrama abaixo segue essa linha de oeste para este, do Pacífico até às vinhas no sopé dos Andes.

Do Pacífico a Mendoza, através dos Andes: Oceano Pacífico, Corrente de Humboldt (do Peru), Ventos de oeste, Chuva e neve na encosta chilena, a barlavento, Mendoza, Sombra de chuva, Cordilheira da Costa, Depressão Central, Andes (Cordilheira Principal), Placa Sul-Americana, Placa de Nazca, Fossa Peru-Chile, Chile central: clima mediterrânico (Köppen Csb), Mendoza: clima semiárido e continental

Bloco-diagrama esquemático, sem escala: em cima vê-se o relevo e na face frontal um corte, colorido segundo o tipo de solo e de rocha.

Ler a figura em texto
  • Ao longo da fossa Peru-Chile, a Placa de Nazca, oceânica, afunda sob a parte continental da Placa Sul-Americana, que se eleva e forma os Andes.
  • De oeste para este, os Andes chilenos dividem-se em Cordilheira da Costa, Depressão Central e Cordilheira Principal.
  • A Corrente de Humboldt, também chamada do Peru, leva água fria subantártica para norte ao longo das costas do Chile e do Peru.
  • Os ventos de oeste com frentes do Pacífico são forçados a subir a vertente chilena dos Andes, onde a precipitação aumenta; quando o ar desce a sotavento, a precipitação diminui e, à latitude de Mendoza, forma-se uma sombra de chuva do lado argentino.
  • No centro do Chile, da costa às encostas baixas dos Andes, predomina o clima mediterrânico (Köppen Csb).
  • Mendoza fica no sopé dos Andes, que servem de barreira aos ventos húmidos do Pacífico; o clima é continental e semiárido, e os Andes são a principal fonte de rega.

Dois climas, um de cada lado da mesma cordilheira

O contraste é claro nas classificações climáticas. No centro do Chile, da costa às encostas baixas dos Andes, predomina o clima mediterrânico (Köppen Csb; regionalização climática do Chile continental de Sarricolea e colegas, 2017). Mendoza, do outro lado da cordilheira, tem um clima continental e semiárido; os Andes são uma barreira aos ventos húmidos do Pacífico.

A precipitação anual depende da estação e do período considerado. O serviço meteorológico nacional da Argentina (SMN) publica as normais climatológicas de 1991–2020 de 105 estações, entre elas Mendoza Aero; é aí que se podem consultar os valores de cada estação.

Tabela que compara o Chile central e Mendoza: lado dos Andes, movimento do ar, tipo de clima, o Pacífico e a água da vinha

O que as fontes dizem para cada lado dos Andes à latitude de Mendoza: para onde se move o ar, como muda a precipitação e como se classifica cada clima.

Ler a figura em texto
A figura em tabela
Chile centralMendoza
Lado dos AndesA barlavento, a oesteA sotavento, a leste
O arAr de oeste com frentes do Pacífico sobe as encostas; a precipitação aumentaO ar desce a vertente oriental; a precipitação diminui
ClimaMediterrânico (Köppen Csb), da costa às encostas baixas dos AndesContinental e semiárido
O PacíficoNa costaPara além das montanhas; Mendoza fica na sombra de chuva
Água da vinha—Os Andes são a principal fonte de irrigação

Altitude e luz ultravioleta

A altitude altera a luz que chega a uma vinha. Com menos atmosfera por cima para a absorver, a radiação ultravioleta (UV) aumenta com a altura, cerca de 10% por cada 1.000 m de altitude (Organização Mundial da Saúde).

Se isto importa para as uvas foi testado no campo. Berli e colegas (2011) estudaram o Malbec numa vinha a 1.450 m, comparando videiras com e sem UV-B solar, e com e sem aplicação de ácido abscísico (ABA), uma hormona vegetal.

Tanto a UV-B solar como o ABA aumentaram os fenóis das películas, e os seus efeitos somaram-se. Os perfis de antocianinas e de fenóis não antociânicos mudaram, e subiu a proporção de fenóis com elevada capacidade antioxidante. A UV-B solar aumentou o total de fenóis não antociânicos, que se manteve elevado até à vindima.

O estudo responde a uma pergunta concreta, como respondem à UV-B os bagos de Malbec de uma vinha de altitude, e sustenta um mecanismo. Não demonstra que todo o vinho de altitude tenha uma cor mais profunda.

Ilustração de uma vinha de altitude com duas filas de Malbec em espaldeira sob um sol intenso, raios tracejados que chegam às videiras, picos nevados ao fundo e um corte de uma baga com película escura em redor da polpa clara e das grainhas

A radiação ultravioleta aumenta com a altitude em toda a parte; as restantes anotações são resultados de um estudo de campo numa vinha de Malbec, que mediu bagas e não vinho acabado. Os raios tracejados, as videiras e as proporções da baga não estão à escala. As formas e as cores são ilustrativas.

Ler a figura em texto
  • A UV aumenta com a altitude — Cerca de 10% por cada 1.000 m, porque fica menos atmosfera por cima para a absorver
  • Ensaio de campo a 1.450 m — Videiras de Malbec com ou sem UV-B solar, e com ou sem aplicação de ABA, uma hormona vegetal
  • Películas: mais fenóis — A UV-B solar e o ABA aumentaram-nos, e os efeitos somaram-se
  • Até à vindima — A UV-B solar aumentou os fenóis não antociânicos, que se mantiveram elevados até à vindima

Água dos Andes

Num clima semiárido, a chuva por si só não decide quanta água recebe uma vinha. Os Andes são a principal fonte de rega de Mendoza: a cordilheira que seca os ventos de oeste também fornece a água que chega às videiras.

Onde a rega fornece a maior parte da água, quanto recebe uma videira, e quando, depende mais das decisões de rega do que do tempo.

Água a correr num canal de pedra junto a um perfil de solo com pedras arredondadas e uma camada clara, com filas de videiras e picos nevados ao fundo
Imagem gerada. Um canal de pedra leva água junto a um perfil de solo aberto com pedras arredondadas e uma camada clara. Ilustra a ideia de rega e solo e não é um perfil estudado.

Imagem: Maison Apéro (imagem gerada) · Maison Apéro original

Relevo e altitude

O terroir não é só clima. Quanto ao relevo, as vinhas de Mendoza ficam no sopé dos Andes, a leste da cordilheira. Quanto à altitude, o estudo de campo citado foi feito a 1.450 m.

No copo: o que se pode inferir e o que não se pode

Ao provar um Malbec de Mendoza, é tentador ler o lugar diretamente na cor. A evidência deste artigo sustenta uma ligação mais estreita: num local alto, a UV-B solar pode aumentar os fenóis da película do Malbec. Entre o bago e o copo está toda a vinificação, pelo que a intensidade de cor de um vinho não pode ser atribuída apenas à altitude.

Um exercício melhor é comparar. Prove lado a lado vinhos de vinhas a altitudes diferentes, registe sempre pela mesma ordem a intensidade de cor, o aroma, a acidez e o tanino, e trate qualquer diferença como uma hipótese a confrontar com a forma como cada vinho foi feito.

Pergunta de treino 1: a sombra de chuva

[Pergunta]
Explique porque é que Mendoza se encontra numa sombra de chuva e compare o seu clima com o do centro do Chile.

[Resposta modelo]
À latitude de Mendoza, os ventos de oeste trazem frentes do Pacífico. O ar é forçado a subir as encostas chilenas dos Andes, onde a precipitação aumenta; depois de atravessar a cordilheira, desce a vertente oriental, onde a precipitação diminui. Forma-se assim uma sombra de chuva do lado argentino. O centro do Chile, a barlavento, tem um clima mediterrânico (Köppen Csb) da costa às encostas baixas dos Andes, enquanto Mendoza tem um clima continental e semiárido, e as suas vinhas dependem dos Andes como principal fonte de água de rega.

[Critérios de avaliação (10 pontos)]
- Subida do ar e aumento da precipitação nas encostas chilenas, a barlavento (3 pontos)
- Descida do ar e menor precipitação a sotavento, identificada como sombra de chuva (3 pontos)
- Contraste entre um clima mediterrânico (Csb) e um clima continental semiárido (2 pontos)
- A rega a partir dos Andes como consequência para as vinhas (2 pontos)

Pergunta de treino 2: altitude e evidência

[Pergunta]
Um contrarrótulo afirma que “o sol de altitude dá a este Malbec a sua cor profunda”. Com o número da OMS sobre a UV e o estudo de campo de 2011, avalie a afirmação.

[Resposta modelo]
A radiação UV aumenta com a altitude, cerca de 10% por cada 1.000 m (OMS), porque resta menos atmosfera para a absorver. Numa vinha de Malbec a 1.450 m, Berli e colegas verificaram que a UV-B solar aumentava os fenóis da película, de forma aditiva com o ABA aplicado, alterava os perfis de antocianinas e de fenóis não antociânicos e mantinha elevados os fenóis não antociânicos até à vindima. Isto sustenta um mecanismo que liga altitude, UV-B e fenóis da película. Mas o estudo mediu bagos de uma só vinha, não vinho acabado, e a cor no copo passa também pela vinificação. A afirmação é plausível como parte da explicação, mas a altitude por si só não a prova.

[Critérios de avaliação (10 pontos)]
- Magnitude e causa do aumento da UV com a altitude (2 pontos)
- Desenho e principais resultados do estudo de campo (4 pontos)
- Limites da evidência: bagos, um só local e o papel da vinificação (4 pontos)

Dos ventos de oeste ao bago: a cadeia causal

Passo 1

Quadro físico

  • Os ventos de oeste com frentes do Pacífico sobem as encostas chilenas e deixam lá a sua precipitação
  • O ar mais seco desce a vertente leste: Mendoza fica na sombra de chuva
Passo 2

Condições para a vinha

  • Clima continental e semiárido; os Andes, principal fonte de rega
  • Mais UV com a altura: cerca de 10% por cada 1.000 m
Passo 3

O que foi medido

  • A 1.450 m, a UV-B solar aumentou os fenóis da película do Malbec
  • A cor no copo depende também da vinificação
Resumo do argumento do artigo; cada passo é exposto no texto com a sua fonte.

Perguntas frequentes

Porque é que Mendoza é mais seca do que o centro do Chile?

Porque ficam em lados opostos dos Andes. Os ventos de oeste trazem frentes do Pacífico, sobretudo no inverno, e o ar sobe as encostas chilenas, onde a precipitação aumenta. O centro do Chile tem clima mediterrânico (Köppen Csb); Mendoza, a sotavento, tem um clima continental e semiárido.

Porque é que as vinhas de Mendoza dependem da rega?

Como os Andes servem de barreira aos ventos húmidos do Pacífico, Mendoza tem um clima continental e semiárido. A principal fonte de rega também são os Andes.

A altitude muda as uvas de Malbec?

A radiação UV aumenta cerca de 10% por cada 1.000 m de altitude (OMS). Num estudo de campo com Malbec numa vinha a 1.450 m, a UV-B solar aumentou os fenóis da película, e o seu efeito somou-se ao da hormona vegetal ABA (Berli e colegas, 2011). O estudo mediu bagos, não vinho acabado.

Ver também: O que é uma sombra de chuva? (As montanhas e as suas sombras: sombras de chuva comparadas, das Cascades aos Alpes)

Fontes