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A Corrente de Humboldt e a Cordilheira da Costa do Chile: ar fresco, Carmenère e a química das notas verdes

Como uma corrente fria e a Cordilheira da Costa refrescam o Chile, a identificação da Carmenère em 1994 e o que a luz nos cachos muda nas notas verdes.

A Corrente de Humboldt, também chamada Corrente do Peru, é uma corrente oceânica fria que leva água subantártica para norte ao longo das costas do Chile e do Peru.

Faz parte de: Terroir e clima

Maison Media Editorial · Publicado · Atualizado

Fileiras de vinha no fundo de um vale e parcelas em socalcos na encosta, com nuvens baixas ao longo das vertentes e montanhas nevadas ao fundo; um grupo de vindimadores trabalha entre as videiras
Fileiras de videiras e parcelas em socalcos num vale, com nuvens baixas sobre as colinas e picos nevados ao fundo.

Imagem: Maison Apéro (imagem gerada) · Maison Apéro original

O que este artigo explica

As vinhas do centro do Chile ficam entre o oceano Pacífico e os Andes. Este artigo segue dois fios: como uma corrente oceânica fria e uma cordilheira costeira baixa moldam o ar que chega aos vales e, através da história da Carmenère, o que a investigação diz sobre as notas verdes, de pimento, das uvas tintas.

Uma corrente fria ao longo da costa

A Corrente de Humboldt leva água subantártica para norte ao longo das costas do Chile e do Peru. Como outras correntes das costas ocidentais dos continentes, corre em direção ao equador e chama-se corrente fria porque transporta água fresca das regiões polares para os trópicos.

É uma corrente de fronteira oriental: lenta, larga e pouco profunda, com uma zona marcada de afloramento costeiro (upwelling), onde a água fria do fundo sobe à superfície. O seu efeito refrescante na costa nota-se muito mais a norte: embora Lima esteja numa latitude tropical, a fresca Corrente do Peru (de Humboldt) ao largo ajuda a dar-lhe um clima temperado durante todo o ano.

Do mar frio ao ar fresco: a camada marinha e a Cordilheira da Costa

Sobre a água do mar fria, o ar é arrefecido por baixo. A temperatura do ar passa então a aumentar com a altitude, formando uma inversão; o ar fresco e húmido que fica por baixo é a camada marinha e, quando arrefece o suficiente, formam-se nuvens baixas ou nevoeiro junto à superfície. Nas costas ocidentais dos continentes, essa camada pode persistir durante dias ou semanas. O exemplo habitual é a Califórnia, mas o processo vale para as costas ocidentais em geral.

Quando a camada marinha se torna mais espessa, o ar marinho arrefecido pode transbordar as montanhas costeiras para os vales interiores. No centro do Chile, a primeira barreira é a Cordilheira da Costa: de oeste para este, a região andina chilena divide-se em Cordilheira da Costa, Depressão Central e Cordilheira Principal. Estas unidades associam-se a três domínios tectónicos paralelos à margem: o antearco externo, o antearco interno e o arco vulcânico. Os Andes elevam-se onde a Placa de Nazca, oceânica, afunda sob a Placa Sul-Americana.

As cordilheiras costeiras formam uma crista entre a depressão e o Pacífico, raramente acima de cerca de 2000 m (6500 pés), com cumes suaves ou aplanados por serem muito mais antigas do que os Andes.

Corte oeste–leste: mar frio com água a subir das profundezas, nevoeiro sob uma inversão tracejada que transborda sobre uma cordilheira costeira baixa e de topo plano, vinhas num vale preenchido por sedimentos, Andes nevados e setas de brisa marinha e de vento andino que se encontram sobre o vale

Corte transversal do Pacífico (oeste, à esquerda) aos Andes (leste, à direita). As alturas, as distâncias, a espessura das camadas e os trajetos das setas não estão à escala; as formas e as cores são ilustrativas. A camada marinha vale para as costas ocidentais em geral; o encontro dos ventos é o de Colchagua.

Ler a figura em texto
  • Camada marinha — Ar arrefecido por baixo sob uma inversão; junto à superfície formam-se nevoeiro ou nuvens baixas
  • Cordilheira da Costa — Primeira cadeia para o interior; uma camada marinha mais profunda pode transbordá-la para os vales
  • Brisas marinhas e ventos andinos — Em Colchagua, as colinas costeiras baixas permitem que se encontrem e arrefeçam o vale
  • Corrente de Humboldt — A água fria corre para norte; a ressurgência traz água fria das profundezas
  • Depressão Central — Terras baixas preenchidas por sedimentos dos Andes

Rochas, sedimentos e clima entre as duas cordilheiras

A Cordilheira da Costa do centro do Chile contém um grande corpo granítico, o Batólito Costeiro. A datação de zircões das suas rochas no centro-sul do Chile dá idades de cerca de 300 a 320 milhões de anos, no Carbónico superior (Pensilvaniano). Os solos de cada vale não são descritos aqui.

A Depressão Central é limitada sobretudo por falhas. É um recetáculo natural do material vindo dos Andes e foi preenchida por sedimentos aluviais, fluvioglaciares ou morénicos, conforme a zona.

Na regionalização climática de Köppen do Chile continental de Sarricolea e colegas, o centro do país é dominado por climas mediterrânicos. Entre 33° S e 39° S, o tipo Csb estende-se da linha de costa até cerca de 1200 m de altitude; acima disso dá lugar a uma variante mais fresca, Csc.

Altitude e exposição: além desse limite climático de 1200 m, este artigo não indica a altitude nem a exposição das vinhas de Casablanca, Leyda ou Apalta.

Tabela que compara a Cordilheira da Costa, a Depressão Central e a Cordilheira Principal por domínio tectónico, rochas ou enchimento, relevo e clima de Köppen

As idades vêm de datações de zircões no centro-sul do Chile; os tipos de clima, da regionalização de Köppen do Chile continental.

Ler a figura em texto
A figura em tabela
Cordilheira da CostaDepressão CentralCordilheira Principal
Domínio tectónicoAntearco externoAntearco internoArco vulcânico
Rochas ou enchimentoRochas graníticas do Batólito Costeiro, com cerca de 300 a 320 milhões de anosSedimentos aluviais, fluvioglaciares ou morénicosFornece material à depressão
RelevoMais antiga do que os Andes; cumes suaves ou planosTerra baixa limitada sobretudo por falhasElevada onde a Placa de Nazca afunda sob a América do Sul
Clima, 33°–39° SCsb a partir da linha de costaCsbCsb abaixo de 1200 m; Csc, mais fresco, acima

Vales interiores: onde a brisa marinha encontra o vento andino

Chile: mapa com um marcador em Vale do Maipo (Valle del Maipo / inglês: Maipo Valley)Vale do Maipo (Valle del Maipo / inglês: Maipo Valley) e arredores: mapa com um marcador
Vale do Maipo (Valle del Maipo / inglês: Maipo Valley) · ChileMapa: Maison Apéro, com base em Natural Earth (domínio público)
Chile: mapa com um marcador em Vale de Colchagua (Valle de Colchagua / inglês: Colchagua Valley)Vale de Colchagua (Valle de Colchagua / inglês: Colchagua Valley) e arredores: mapa com um marcador
Vale de Colchagua (Valle de Colchagua / inglês: Colchagua Valley) · ChileMapa: Maison Apéro, com base em Natural Earth (domínio público)

O clima do Vale do Maipo é mediterrânico ameno, com verões quentes e secos e invernos frios e chuvosos. As vinhas a leste ficam no sopé dos Andes, as vinhas a oeste chegam aos solos arenosos da cordilheira costeira, e a casta principal é a Cabernet Sauvignon.

Mais a sul, o Vale de Colchagua ocupa a metade sul do Vale do Rapel. A baixa altitude das colinas costeiras permite que as brisas do Pacífico interajam com os ventos dos Andes, refrescando o vale e prolongando o período de maturação.

O que uma estação mais longa pode ou não fazer pelas notas verdes é tratado na secção 7.

Carmenère: uma casta bordalesa reencontrada no Chile

A Carmenère chegou ao Chile vinda de Bordéus em meados do século XIX, com outras castas bordalesas, e foi durante muito tempo cultivada como Merlot. Em Bordéus, a casta tornou-se rara depois da filoxera.

Em 1994, o ampelógrafo francês Jean-Michel Boursiquot identificou como Carmenère videiras que cresciam no Chile como «Merlot». O Chile tornou-se assim a principal casa de uma casta que, durante muito tempo, quase ninguém vinificara conscientemente.

Folhas de videira vermelhas de outono à volta de cachos de uvas negro-azuladas num cordão velho
Grande plano de folhas vermelhas de outono e cachos de uvas escuras numa videira, com uma vinha desfocada ao fundo.

Imagem: Maison Apéro (imagem gerada) · Maison Apéro original

Notas de pimento verde: o que a luz nos cachos muda de facto

Os carateres de pimento, espargo e ervilha no vinho são atribuídos às metoxipirazinas, um grupo de compostos aromáticos. A pimenta-preta é outra coisa: vem de um sesquiterpeno, a rotundona.

Um desses compostos é a 3-isobutil-2-metoxipirazina (IBMP). Num estudo sobre Cabernet Franc no estado de Nova Iorque, Ryona e colegas observaram que a IBMP se acumula no bago desde o vingamento até cerca de 0 a 14 dias antes do pintor e depois diminui. Expor os cachos à luz reduziu a acumulação antes do pintor entre 21 e 44 % em relação aos cachos sombreados, mas não acelerou a diminuição depois do pintor. Os níveis duas semanas antes do pintor estavam fortemente correlacionados com os da vindima.

A leitura prática é que a luz à volta dos cachos atua cedo, antes do pintor, e não como uma «queima» tardia perto da vindima. O estudo foi feito com Cabernet Franc, não com Carmenère.

No copo, separe o pimento da pimenta: pimento, espargo ou ervilha apontam para as metoxipirazinas; a pimenta-preta, para a rotundona.

Ilustração de uma fiada de videiras em espaldeira ao longo da época: pequenos cachos verdes no vingamento, um cacho verde ao sol junto a outro à sombra das folhas antes do pintor, uma linha tracejada do pintor e depois cachos a avermelhar e escuros, com uma seta de tempo ao longo do chão

Uma fiada de videiras ao longo da época, da esquerda para a direita; a linha tracejada marca o pintor. Antes do pintor, o cacho da esquerda está ao sol e o da direita à sombra das folhas. Segundo o estudo de Ryona e colegas sobre Cabernet Franc em Nova Iorque. Tempos não à escala; formas e cores ilustrativas.

  • No copo, notas de pimento, espargo ou ervilha apontam para as metoxipirazinas; a pimenta-preta aponta para a rotundona.
Ler a figura em texto
  • Vingamento — O IBMP começa a acumular-se no bago
  • Luz antes do pintor — Os cachos expostos acumularam 21 a 44 % menos IBMP do que os sombreados
  • Depois do pintor — Os níveis descem; a exposição não acelerou a descida
  • Pico de IBMP — Cerca de 0 a 14 dias antes do pintor
  • Colheita — Fortemente correlacionada com os níveis duas semanas antes do pintor

Exercício 1: como o ar da costa arrefece

Pergunta
Explique, passo a passo, como a Corrente de Humboldt pode baixar a temperatura do ar no lado pacífico do centro do Chile e o que decide se o ar fresco chega aos vales interiores.

Resposta modelo
A Corrente de Humboldt leva água subantártica fria para norte ao longo da costa, e o afloramento traz água fria do fundo para a superfície. O ar sobre a água fria é arrefecido por baixo e forma-se uma inversão; por baixo fica uma camada marinha fresca e húmida, onde se podem formar nuvens baixas ou nevoeiro. Quando a camada marinha se torna mais espessa, o ar marinho frio pode transbordar as montanhas costeiras para os vales interiores. No centro do Chile, a primeira barreira é a Cordilheira da Costa; onde as colinas são baixas, como em Colchagua, as brisas do Pacífico chegam ao vale e encontram os ventos andinos.

Pontos de autoavaliação
– Indica a corrente fria e o afloramento como origem da água superficial fria.
– Explica a inversão e a camada marinha, com nevoeiro ou nuvens baixas.
– Relaciona até onde chega o ar fresco com a espessura da camada marinha e a altura das colinas costeiras.

Exercício 2: luz, pintor e notas verdes

Pergunta
Um viticultor quer menos notas de pimento verde numa casta tinta e planeia desfolhar à volta dos cachos duas semanas antes da vindima. Com base no estudo de Ryona e colegas sobre Cabernet Franc, explique se esse momento deverá resultar.

Resposta modelo
Nesse estudo, a IBMP acumulou-se desde o vingamento até cerca de 0 a 14 dias antes do pintor. Expor os cachos à luz reduziu a acumulação antes do pintor entre 21 e 44 %, mas não acelerou a diminuição depois do pintor, e os níveis duas semanas antes do pintor estavam fortemente correlacionados com os da vindima. Desfolhar duas semanas antes da vindima acontece depois do pintor, quando a exposição já não alterava a diminuição, pelo que é pouco provável que baixe a IBMP. Expor os cachos antes do pintor ajusta-se melhor aos resultados. Como o estudo foi feito com Cabernet Franc, a resposta deve notar que a Carmenère precisa dos seus próprios dados.

Pontos de autoavaliação
– Indica quando a IBMP se acumula e quando diminui.
– Usa a conclusão de que a luz atua antes do pintor, não depois.
– Refere os limites: uma só casta, estudada apenas no estado de Nova Iorque.

Da água fria ao copo

Passo 1

Oceano e relevo

  • Corrente fria e afloramento
  • Camada marinha, nevoeiro e Cordilheira da Costa
Passo 2

Vale e videira

  • Brisa marinha e vento andino encontram-se onde as colinas costeiras são baixas
  • A luz nos cachos antes do pintor limita a IBMP
Passo 3

No copo

  • Pimento, espargo ou ervilha: metoxipirazinas
  • Pimenta-preta: rotundona, não pirazinas
Uma cadeia simplificada; cada elo é explicado, com a sua fonte, nas secções acima.

Perguntas frequentes

Porque se diz que a Corrente de Humboldt é fria?

Porque leva água subantártica para norte ao longo das costas do Chile e do Peru. Como outras correntes das costas ocidentais dos continentes, corre para o equador com água fresca das regiões polares, e o afloramento traz água fria do fundo para a superfície.

Quando foi a Carmenère identificada no Chile?

Em 1994, quando o ampelógrafo francês Jean-Michel Boursiquot identificou como Carmenère videiras cultivadas no Chile como Merlot. A casta tinha chegado de Bordéus em meados do século XIX.

O sol elimina as notas de pimento verde mesmo antes da vindima?

Não, segundo o estudo de Ryona e colegas sobre Cabernet Franc. A luz nos cachos reduziu a acumulação de IBMP antes do pintor entre 21 e 44 %, mas não acelerou a sua diminuição depois do pintor: a luz conta no início da estação.

Fontes

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